Marca estabelecida em 1995 pelo rolandense José Ângelo Correa da Silva continua sem ser superada em provas realizadas no Brasil

Mais de trinta anos após ser estabelecido, o recorde brasileiro dos 100 quilômetros em ultramaratona permanece sem ser superado em provas realizadas dentro do país. A marca pertence ao atleta rolandense José Ângelo Correa da Silva (65), conhecido no meio esportivo como Cebola, que correu os 100 km em 6h30min25seg em 1995 e continua sem ser batido.
O excelente tempo foi obtido durante a Ultramaratona Internacional Memorial Wembley, disputada em Santos (SP), no dia 7 de maio de 1995. Naquele ano, o desempenho colocou o atleta entre os melhores resultados do mundo na modalidade, sendo apontado como a terceira melhor marca internacional da temporada. Mesmo com a evolução dos métodos de treinamento, da nutrição esportiva e da tecnologia aplicada ao alto rendimento, a marca permanece como uma das mais duradouras do ultramaratonismo brasileiro.
Trajetória
A trajetória de Cebola no esporte começou em condições muito diferentes das estruturas atuais de preparação de atletas. Ainda jovem, em Rolândia, trabalhou como ensacador de café, atividade que exigia grande esforço físico diário. Registros biográficos indicam que ele era capaz de levantar sacos de até 200 quilos, chegando a ensacar cerca de 375 unidades por dia, rotina que contribuiu para o desenvolvimento da resistência física, a qual, mais tarde, se tornaria uma de suas principais características nas corridas de longa distância.
Os primeiros resultados nas competições regionais já indicavam seu potencial. Em uma das provas iniciais, venceu com ampla vantagem, cruzando a linha de chegada cerca de 200 metros à frente do segundo colocado, entre aproximadamente 300 participantes. A projeção nacional veio em 1994, quando conquistou o título da 2ª Extramaratona Internacional de 100 km, realizada na Universidade de São Paulo (USP). Na ocasião, além da vitória, quebrou o recorde brasileiro da prova em 18 minutos, resultado que o colocou entre os principais nomes da modalidade no país.
Segundo Marta Regina da Silva, museóloga responsável pelo acervo histórico do atleta e sua irmã, avaliações fisiológicas realizadas na época indicaram que Cebola possuía índices comparáveis aos de corredores de elite internacionais. Entre os dados registrados estavam 6,5% de gordura corporal, consumo máximo de oxigênio de 78,2 ml/kg/min e elevada eficiência mecânica de corrida.
197,8K em 24H
Outro resultado expressivo ocorreu em uma prova de 24 horas, quando percorreu 197 quilômetros e 873 metros, marca que lhe garantiu o recorde sul-americano da modalidade na época. Ao longo da carreira, Cebola representou o Brasil em ultramaratonas disputadas em países como Rússia, França, Holanda, Espanha, Alemanha, África do Sul e Estados Unidos, projetando o nome de Rolândia no cenário internacional da modalidade.
Para Marta, a permanência do recorde por mais de três décadas demonstra a dimensão do feito alcançado pelo atleta. “Mesmo com toda a evolução do esporte, a marca continua sendo uma referência no ultramaratonista brasileiro”, destaca a museóloga, que quer criar um museu para seu irmão e seus feitos no atletismo rolandense, paranaense e brasileiro.

Tucano fala
“O Cebola começou comigo aqui em Rolândia e corria 5 e 10 km. Um dia, falei para ele sobre uma prova do Brasileiro de 100 km que seria realizada no campus da USP, em São Paulo, organizada pelo grupo Pão de Açúcar”, relembra Tucano. “Falei que, se ele treinasse, poderia se sair bem nela, apesar da presença de atletas estrangeiros e do mundo todo”, ressaltou.
Cebola escutou o treinador e treinou seis meses para a prova da USP em percursos de estrada em Rolândia. De acordo com Tucano, a corrida consistia em dar cinco voltas de 20 km pela Universidade de São Paulo. “Chegamos em São Paulo e falei pra ele: você vai correr atrás desses caras (o pelotão de elite) e não vai para frente em nenhum momento. A hora que esse povo começar a cansar, você vai pra frente”, planejou o treinador.
Segundo Tucano, era uma tarde de muito calor e, a cada volta, ele passava as instruções para o Cebola. “Depois dos 50 km, todos os atletas, principalmente os estrangeiros, já estavam quebrando. Quando completou a terceira volta, nos 60 km, o Cebola me disse que o ritmo estava tranquilo e que ele iria pra frente. Foi e ganhou a prova em 6h33min”, comemorou Ivar Benazi.
Tucano ainda credita que os métodos de treinamento da equipe do Pão de Açúcar, de São Paulo, não deram certo com o estilo de Cebola. “Não combinaram. Cebola poderia ter ido muito mais longe ainda dentro do atletismo brasileiro e ter sido reconhecido como um dos maiores ultramaratonistas do mundo”, concluiu Tucano.
Cebola fala
“Eu não sei de onde vem minha resistência, mas eu me sentia bem depois dos 40, 50 quilômetros. Não sei porque”, revelou Cebola. O atleta quer voltar a treinar com mais seriedade depois que se aposentar, o que deve ocorrer em agosto. “Vou falar com o Tucano, tratar de uma lesão no pé, e quero bater o recorde dos 10 km em pista em minha categoria. Minha ideia é essa”, ressaltou.
Sobre a falta de reconhecimento dos meios esportivos sobre suas conquistas, já que as provas e seus tempos não foram registrados pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), Cebola só afirma uma coisa: “O recorde dos 100 km em solo brasileiro é meu e isso ninguém tirou de mim”. Não mesmo.




