Especialista explica por que a forma de comunicar um diagnóstico pode mudar o tratamento

Receber um diagnóstico capaz de mudar completamente a vida está entre os momentos mais delicados enfrentados por qualquer paciente. Ao mesmo tempo, comunicar essa notícia é um dos maiores desafios da prática médica.
Até onde é possível dizer tudo sobre o tratamento? Existe um momento adequado para abordar prognósticos mais delicados? Como equilibrar transparência, acolhimento e responsabilidade sem gerar falsas expectativas? Essas são questões presentes na rotina de médicos que lidam diariamente com doenças complexas.
Para o neurocirurgião Dr. Ivan Hattanda, especialista em cirurgia da coluna e do cérebro, comunicar um diagnóstico exige muito mais do que domínio técnico. “Pede sensibilidade para compreender o momento vivido pelo paciente e sua família”, diz.
Na semana passada, o anúncio de que o piloto e influenciador Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, recebeu o diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) gerou grande comoção entre os fãs. Trata-se de uma condição neurológica rara, degenerativa e sem cura. A notícia é um exemplo de como a forma de comunicar um diagnóstico grave impacta o paciente, a família e, no caso, os milhares de seguidores de Lito. Ao tornar o quadro público, a família precisou equilibrar a necessidade de informar com a intimidade de um momento delicado, evidenciando dilemas que se repetem também no consultório médico.
Diagnóstico definitivo é diferente de suspeita diagnóstica
Segundo o neurocirurgião Ivan Hattanda, um dos principais erros que podem gerar ansiedade desnecessária na comunicação de um diagnóstico difícil é tratar uma suspeita como certeza.
Exames de imagem, como a ressonância magnética, frequentemente apontam alterações sugestivas de determinadas doenças, mas, em muitos casos, apenas a cirurgia e a análise anatomopatológica são capazes de confirmar o diagnóstico definitivo.
“Existe uma diferença importante entre uma hipótese diagnóstica e um diagnóstico confirmado. Antecipar certezas antes da confirmação pode provocar sofrimento desnecessário para o paciente e para a família”, avalia Hattanda.
Essa cautela é especialmente importante em doenças como os tumores cerebrais, que podem apresentar imagens semelhantes, mas tratamentos e prognósticos completamente diferentes.
Informação acompanha cada etapa do tratamento
Outro aspecto fundamental é compreender que a comunicação também faz parte do tratamento. Segundo o especialista, não é necessário concentrar todas as informações em uma única consulta.
“O paciente costuma estar emocionalmente abalado e dificilmente consegue absorver todos os detalhes de uma só vez. Por isso, a orientação é conduzir a conversa de forma progressiva, respeitando cada etapa da investigação e do tratamento”, descreve Ivan Hattanda.
De acordo com ele, na consulta inicial, o foco costuma ser esclarecer o motivo da cirurgia, seus riscos, benefícios e objetivos imediatos. Após a confirmação diagnóstica, novas conversas aprofundam temas como prognóstico, terapias complementares e acompanhamento.
“A consulta precisa ser direcionada para o momento que aquele paciente está vivendo”, destaca o médico.
Verdade fortalece a confiança
Embora seja comum a tentativa de proteger emocionalmente o paciente, omitir informações importantes pode comprometer a relação de confiança ao longo do tratamento. Isso ocorre, por exemplo, em algumas doenças que apresentam alto risco de recorrência, mesmo após uma cirurgia bem-sucedida.
“Quando o paciente compreende desde o início quais são os objetivos reais do tratamento, que são controlar a doença, preservar funções neurológicas e aumentar a qualidade de vida, ele tende a enfrentar as etapas futuras com expectativas mais realistas. A confiança é construída quando existe clareza sobre o que a cirurgia pode oferecer e também sobre suas limitações”, reforça Hattanda.
Não tratar também envolve riscos
Outro ponto frequentemente negligenciado durante a consulta é que optar por não realizar um tratamento também traz riscos para a saúde e qualidade de vida do paciente.
Segundo Ivan Hattanda, muitos pacientes recusam uma cirurgia motivados principalmente pelo medo, sem compreender completamente os riscos da evolução natural da doença.
Nas doenças da coluna, por exemplo, a compressão prolongada dos nervos pode causar lesões permanentes, reduzindo as chances de recuperação mesmo após uma cirurgia realizada posteriormente.
Para facilitar esse entendimento, Hattanda costuma recorrer a uma analogia simples: “É como uma pedra apoiada sobre um gramado. Se retirada rapidamente, a grama se recupera quase por completo. Se permanecer durante muito tempo pressionando o mesmo local, ela amarela. Depois de anos, talvez reste apenas terra. Com os nervos acontece algo semelhante. Quanto maior o tempo de compressão, menores podem ser as possibilidades de recuperação”, compara o neurocirurgião.
Cirurgia é apenas uma parte do tratamento
Para ele, outro conceito que ganha cada vez mais espaço na medicina moderna é o cuidado multidisciplinar. Em muitos casos, tanto nas doenças da coluna quanto do cérebro, a cirurgia representa apenas uma etapa dentro de um processo que pode envolver fisioterapia, fortalecimento muscular, reeducação postural, acompanhamento nutricional e, quando necessário, suporte psicológico. Há pacientes que melhoram significativamente com tratamento conservador e sequer precisam ser operados.
“Indicar uma cirurgia apenas quando ela realmente é necessária faz parte do compromisso ético com o paciente”, afirma o especialista. Para ele, humanização também significa comunicar com responsabilidade.
“A comunicação de um diagnóstico difícil exige equilíbrio entre honestidade e acolhimento. Não se trata de esconder informações nem de antecipar cenários que ainda não podem ser confirmados.”
“O desafio está em oferecer informações verdadeiras, no momento adequado, permitindo que o paciente participe das decisões de forma consciente e compreenda que o tratamento é construído passo a passo”, completa Ivan Hattanda, reforçando que comunicar um diagnóstico significa construir uma relação de confiança, que costuma ser um dos primeiros passos para um tratamento bem-sucedido.



