E quando a voz vai sumindo…

Por Samuel M. Bertoco

Todo mundo sabe que guitarras podem trocar cordas, baterias ganham peles novas e pianos passam por afinação. Já o instrumento de um vocalista é bem mais complicado: ele envelhece junto com o dono. E, cedo ou tarde, chega a conta.
Axl (Guns n´Roses): Talvez o caso mais famoso. Dono de uma das vozes mais marcantes da rock, foi perdendo seu “drive” – voz rasgada – e nunca conseguiu realmente se adaptar, tem épocas boas – como agora – e ruins – como no show que fui há uns três anos. Tá apelidado Mickey Mouse. Mas a real é que o Guns tá aí a toda e ele não parece tá dando muita bola não.
Jon Bon Jovi: Passou por uma cirurgia complicadíssima, entrou em uma verdadeira maratona de reabilitação. Em vez de esconder as dificuldades, resolveu mostrá-las ao público, lembrando que, às vezes, coragem também desafina. Está longe do ideal, mas não tá ruim não.


Steven Tyler (Aerosmith): Esse cara é um milagre, passou décadas cantando como se suas cordas vocais tivessem garantia vitalícia. Não tinham. Lesões sucessivas cobraram um preço alto, o Aerosmith chegou a anunciar que não faria mais turnês; mas ele zerou e voltou a cantar tão bem que já tão repensando.


Bruce Dickinson (Iron Maiden): A gente nem chegou a ver uma derrocada tão grande da voz, mas o cara enfrentou um câncer na língua, voltou aos palcos com uma recuperação inacreditável e, apesar dos tons terem abaixado um pouco, ainda é um monstro de vocal.


Dexter (Offspring): Sem doença grave ou cirurgia marcante, ele simplesmente descobriu que décadas cantando músicas rápidas e em registros altíssimos cicatrizes. Durante alguns anos, os shows sofreram com isso, mas o cara estudou, ajustou técnica, e hoje está fino. Como diz a máxima: enquanto alguns vocalistas precisaram reaprender a cantar Dexter precisou aprender a envelhecer. Descobriu que não precisava vencer a própria voz todas as noites — bastava fazer as pazes com ela.
A voz muda. O talento permanece. E os grandes artistas não são os que desafiam o tempo, mas os que aprendem a cantar junto com ele.

Samuel M. Bertoco é formado em Marketing e Publicidade

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