FIML: JR fala com Mônica Salmaso e André Mehmari

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Bate-papo foi horas antes da apresentação da dupla no show ‘Milton’, dentro do Festival Internacional de Música de Londrina

Bastidores da entrevista realizada horas antes do show realizado no Festival de Música de Londrina

Na quarta-feira (15), horas antes do show ‘Milton’, o Grupo JR conversou com a cantora Mônica Salmaso e o pianista André Mehmari. Parceiros há mais de duas décadas, os dois artistas se apresentaram no 46º Festival Internacional de Música de Londrina (FIML) e levaram uma homenagem ao cantor e compositor Milton Nascimento ao palco do Teatro Ouro Verde, que teve os ingressos esgotados.


O show ‘Milton’ teve sua gênesis durante a epidemia da Covid-19, quando os dois artistas gravaram a música ‘Morro Velho’, de Milton Nascimento, canção que os dois já interpretavam em duo há tempos. “A gente gravou durante a pandemia e, depois, eu e o Teco Cardoso (saxofonista e flautista) fomos até o estúdio do André e lá conseguimos de novo fazer música juntos. Entre as canções, gravamos Morro Velho”, relembra Mônica Salmaso.


Quando a dupla ouviu a música no ‘ar’, teve vontade de se encontrar de novo. “Morro Velho levou a gente, naturalmente, a fazer um repertório em homenagem ao Milton Nascimento”, ressaltou Mônica. Sobre o impacto de Morro, quando ouvida, André foi taxativo. “Esse é o papel da obra de arte. A gente toca um instrumento e a obra de arte toca a gente, a arte é um tocador de almas. Quando a gente mergulho nesse Morro Velho, que é o retrato de um Brasil tão profundo, tão enraizado, rico, a gente vislumbrou que iria se desdobrar em um especial inteiro ao Milton”, pontuou Mehmari.


“Como aquilo se tornou um documento tão precioso naquele momento, percebemos que não poderia parar: tornou-se um álbum digital e um CD e uma turnê, com todos os cuidados por conta da Covid. Inclusive fizemos o show numa igreja em Tiradentes (MG) e levamos o Milton para aquela Minas histórica”, revela o pianista. “Foi lindo”, complementa Mônica. “Foi esse show que trouxemos para o FIML”, Salienta Mehmari.

Milton Gigante
Perguntada sobre a dimensão de Milton, Mônica afirmou que o Brasil é uma causa, um país que nunca se fez completamente. Na música, e Milton é responsável por isso, o país se faz completamente e se realiza como um país da mistura. “O Brasil gera um lugar único: temos a melhor música popular do mundo e o Milton é um dos responsáveis pela concretização do que o Brasil como país poderia ser a ainda não é. A gente segue com carregando a esperança dessa causa, muito por conta da música que existe aqui”, resume a cantora.


“É claro que existe um Brasil que reconhece o Brasil e que entende. Temos diversos Brasis, mas temos também uma máquina poderosíssima que trabalha contra a difusão do melhor Brasil, esse citado pela Mônica que produz a melhor canção do mundo. Não existe similar com a diversidade, com a riqueza melódica-harmônica de poética Chico Buarque, de Guimarães Rosa, por exemplo. Esse Brasil existe e resiste”, explica André Mehmari.


“Existem centenas de música (referindo ao Erudito e Popular). Quem acredita numa dicotomia de dois mundos para mim está equivocada. O Brasil é um lugar onde esses encontros são permeáveis: Villa-Lobos, por exemplo, aprendeu muito com o Choro, e o quanto do material melódico da obra dele, tido como erudito, vem da rua”, questiona André Mehmari. “Minha obra é um testemunho que existe muito mais do que dois mundo, pois navego por todos eles”.

Encontro
No final da entrevista, os dois falaram sobre como se conheceram: “em um projeto”, arriscou Salmaso; “na rua”, discordou Mehmari. “A primeira vez que te vi foi num estúdio, em São Paulo, em 1997, em que eu fazia trilha sonora”, relembra André. “Mas a gente começou a trabalhar através de um convite que era o show ‘Cantoras da Música Popular’ e não paramos mais. A gente segue e esse (o show Milton) foi um recorte, nascido dentro da pandemia, de um trabalho que existe há muito tempo e seguirá existindo”, concluiu Mônica Salmaso.

O show
No palco, os artistas passeiam pela obra do cantor mineiro Milton Nascimento, em uma seleção afetiva que olha não só para sua música, mas para o país que ele canta e sonha há décadas. O repertório reúne canções como “Canção Amiga” (com Carlos Drummond de Andrade), “Credo” (com Fernando Brant), “Paula e Bebeto” e “Terceira Margem do Rio” (ambas com Caetano Veloso), esta última mergulhada no universo de Guimarães Rosa. “São atos de resistência e de identidade. Essa é a nossa mais potente forma de falar sobre o que acreditamos e queremos para o Brasil”, completa Mônica.

Foto: Fábio Alcover
Foto: Fábio Alcover

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