A mutilação de uma paineira, um marco do desligamento do ser humano

ABC da Agrofloresta – por Daniel Steidle

A partir desta edição, o JR tem uma nova coluna e um novo colunista: ‘Ideias e Prática’ com Daniel Steidle. O Daniel da (Fazenda) Bimini tem sabido interpretar a atual sociedade como ninguém em suas crônicas e textos…

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“Veio o povo das mercadorias, os napë, o homem-branco… e com ele a destruição, a religião, a roupa, a doença e a sua fome incansável pelo ouro”. A tragédia dos Yanomamis é a tragédia também dessa paineira à beira da rodovia PR 170, entre Rolândia e o Distrito de São Martinho, no topo da antiga Fazenda Santa Cruz, que está virando cidade.
Sim, as cidades precisam crescer, mas precisa ser na base da estupidez, da violência? A paineira, todos os anos, presenteava os passantes com lindas flores. Assim como no campo de girassóis, na outra entrada de Rolândia, as pessoas paravam, tiravam fotos.
A destruição da paineira à beira da rodovia PR 170, entre Rolândia e o Distrito de São Martinho é uma demonstração da insensatez do ser humano e provoca uma reflexão sobre a nossa relação com a natureza
Agora? Há cerca de 10 dias, em nome da expansão imobiliária, alguma máquina quebrou os galhos e provocou profundos machucados na paineira… Não houve uma poda, simplesmente destruíram a árvore.

Quem é o culpado pela mutilação da paineira?
É assustador! Passo lá todos os dias indo para a fazenda Bimini e não consigo ignorar, sem pensar que, de novo, como pode acontecer isso? Eu parei lá, fiz a minha foto e chorei!… Chorei porque a paineira não consegue derramar lágrimas, nem gritar pela dor da mutilação.
A quem culpar? O maquinista? Uma empresa? O prefeito? O progresso? Não dá para entender, principalmente, o silêncio das pessoas diante desse crime ambiental. Muita gente deve estar com dor no coração. Mas por que chegamos a este ponto de total insensibilidade?
Sou parte do “povo das mercadorias”… ainda não aprendi a língua do povo dessa terra que se comunicava com as árvores, os animais e as estrelas. Meu desabafo aqui, cheio de emoções, é inútil.
Diante dessa tragédia da paineira, é preciso refletir sobre como vamos continuar? Como melhorar a nossa relação não só com o meio ambiente, mas também com as pessoas que por uma série de motivos estão se agredindo cada dia mais? A indiferença também acontece no ambiente humano, ninguém mais conversa, temos congestionamentos no trânsito, ondas de calor. Um mal-estar geral!

Agrofloresta
A paineira continua em pé, mutilada como marco de uma época de TOTAL DESLIGAMENTO. Como se religar novamente? A Agrofloresta seria uma “escola de religação”?
Estamos trabalhando em um projeto que vai mostrar que é possível estabelecer uma relação saudável entre homem e natureza. Em março, deve ter início a gravação de um curta-metragem e de uma websérie sobre as questões que envolvem água, escola e cidades a partir do olhar AGROFLORESTAL.
Ou seja, o céu cairá… mas há esperança como mostra o final do filme “A queda do céu” (Documentário de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha que explora a luta dos Yanomami contra a destruição ambiental a partir da figura do xamã Davi Kopenawa): nasce uma criança, uma menina! Quem sabe o vento tenha levado alguma semente da paineira para um lugar seguro?

Daniel Steidle
Educador ambiental e neto dos fundadores da Fazenda Bimini, os imigrantes alemães Hans e Hildegard Kirchheim, que, em 1936, desbravaram a região em Rolândia, no norte do Paraná.
Instagram: @fazendabimini

Texto também publicado no O LONDRINENSE
@olondrinensejornal

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