Por Samuel M. Bertoco

Existe algo curioso em Lanternas: a DC finalmente conseguiu fazer uma série de super-heróis que não parece desesperada para ser uma série de super-heróis. O problema é que ela efetivamente é, e aí em determinados momentos, parece até constrangida com a ideia.
A proposta é interessante. Em vez de batalhas intergalácticas, uniformes reluzentes e ameaças capazes de destruir planetas, acompanhamos uma investigação policial numa cidade americana, conduzida por dois sujeitos que, por acaso, possuem alguns dos artefatos mais poderosos do universo. É praticamente True Detective, mas com joias muito mais úteis.
E funciona. Pelo menos durante boa parte da temporada.
Kyle Chandler é excelente como Hal Jordan, um herói envelhecido, amargurado e bastante distante daquele exemplo de virtude que esperamos encontrar nos quadrinhos. Aaron Pierre oferece um contraponto mais sério e disciplinado como John Stewart. A química entre os dois, marcada por provocações, desconfiança e conflitos de gerações, sustenta a série mesmo quando a investigação perde força.
O tom adulto também merece elogios. Lanternas prefere desenvolver personagens a interromper cada conversa com uma explosão digital. Uma escolha muito bem-vinda numa época em que algumas produções parecem acreditar que profundidade dramática se mede pelo tamanho do orçamento dos efeitos especiais.
Mas existe um limite para essa contenção. Estamos falando dos Lanternas Verdes, personagens cuja mitologia envolve mundos alienígenas, criaturas extraordinárias e poderes limitados basicamente pela imaginação. Reduzir tanto esse universo acaba deixando a impressão de que a série tem vergonha de sua própria origem. Não vai fazer sentido no futuro, a gente ter a série dos personagens mais “cósmicos” da DC brincando de policial e aí ter o Batman num foguete em alguma lua de Júpiter lutando contra um alien.
E o roteiro, que começa intrigante, nem sempre recompensa a paciência do espectador. A investigação perde parte do encanto, algumas revelações soam menos impactantes do que deveriam e o encerramento não acompanha a qualidade da construção inicial.
Ainda assim, vale a assistida e não “estraga” nada do universo dos heróis- apesar de ter faltado heroi. Não precisava virar um festival de luzes verdes. Mas também não precisava apagar tantas delas.
Samuel M. Bertoco é formado em Marketing e Publicidade



